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18/03/2024

Artigo: Registro de Imóveis impulsiona a inteligência urbana

Comunicação efetiva é sobre engajamento e conexão emocional

Franklin Estrella é vice-diretor de autorregulação e compliance do Registro de Imóveis do Brasil e registrador no Espírito Santo

Um cidadão busca regularizar sua construção em um Registro de Imóveis. Na Prefeitura, chamam isso de benfeitoria. No cartório, de acessão. O cidadão, que não tem este conhecimento prévio, se vê no meio de um debate linguístico que pode gerar interpretações distantes do que se pretende e evidencia o abismo linguístico existente entre Prefeitura, cartório e usuário.

Navegamos em mares tempestuosos de informação, onde a linguagem pode se tornar um obstáculo, não uma ponte. Os sistemas de cadastro e de registro imobiliário brasileiros ilustram essa fragilidade. O desafio que se coloca não é só educar operadores e usuários, mas estabelecer uma comunicação efetiva, ultrapassando as diferentes órbitas de entendimento. É como se vivêssemos um eco do que o educador canadense Marshall McLuhan apontou em Galáxia de Gutenberg: as pessoas não liam porque não existiam livros antes da prensa ? e, atualmente, não compreendemos por não dispormos de comunicação adequada.

A comunicação efetiva vai além da linguagem: é sobre engajamento, conexão emocional. Precisamos reconhecer os sentimentos pessoais que embotam essas interações. Pior do que não ser atendido é sequer não se sentir compreendido. Quem nunca se sentiu assim quando atendido por um agente público? E, do outro lado, o operador também enfrenta a frustração de não entender os motivos de o usuário não o compreender.

Para quem quiser experienciar o que falo, socorro-me à sétima arte e aos filmes Os Outros, dirigido por Alejandro Amenábar (2001) e Uma Simples Formalidade, dirigido por Giuseppe Tornatore (1994). Observem Kidman e Depardieu lutando internamente para compreender o que está se passando ali, e seu arrebatamento quando, por fim, compreendem. Este é o momento em que a complexidade se revela!

Na última década, novas atribuições aos registradores pareceram estranhas à maneira tradicional de exercermos nossa função. Apesar do choque inicial, atravessamos este Rubicão emocional e, mesmo sem a plena compreensão pelos delegatários quanto aos novos papéis desempenhados, a sociedade se fortaleceu ao nos engajamos contra a lavagem de dinheiro e na defesa contra o uso indevido de dados pessoais, isso ao lado da tradicional análise da regularidade das operações imobiliárias.

E novas atribuições virão! Novos olhares, novas abordagens. Vimos que podemos participar de um organismo maior de forma proativa, independente de termos o controle ou sequer o conhecimento de todos os passos que serão executados para atingir este fim. Esta clareza quanto ao nosso limite de conhecimento resulta em humildade. Permite olharmos à nossa volta e vermos aqueles com quem interagimos, e que se encontram no limite de sua compreensão, e entendê-los. Juntando esta postura às novas proposições tecnológicas, temos a perspectiva do que o futuro nos reserva.

Vejamos as tecnologias de georreferenciamento. A precisão alcançada por aparelhos celulares, disponibilizada de forma gratuita, já modificou a percepção do indivíduo quanto à sua localização ou à de objeto de interesse, de tal forma que muitas aplicações (Uber, por exemplo) admitem que se posicione um destino no mapa, sem precisar escrever o endereço. Vejam que guinada de percepção!

O Registro de Imóveis do Brasil (RIB) disponibiliza no site https://www.registrodeimoveis.org.br/mapa uma ferramenta de acesso gratuito com o maior número de camadas de informações geoespaciais do Brasil. Paulatinamente, estão sendo alimentadas as informações das matrículas dos imóveis. Tal integração permitirá, por exemplo, que localizemos quais matrículas existem em uma área propícia ao desenvolvimento imobiliário, ou a receber intervenção urbanística, ou sob a qual se pretende lançar um oleoduto, ou a miríade de outras prospecções que só o olhar sobre o conjunto de matrículas ligadas por um vínculo de proximidade espacial permite.

Sendo capaz de ler a cidade por seus marcos georreferenciados, o Registro de Imóveis dá um significado a práticas sociais muitas vezes não perceptíveis, como loteamentos em áreas proibidas ou ampliações em áreas de risco ou de inundação. Ou seja, temos uma perspectiva de inteligência urbana, na qual o Registro de Imóveis tem clara posição impulsionadora, possibilitando ao Poder Público atuar de forma mais rápida e eficiente. Para tanto, devemos aproximar a Prefeitura do Registro de Imóveis pela realidade da cidade, não pela imagem multifacetada segregada nos diversos escaninhos das secretarias municipais.

A partir desta leitura, proponho que, no atual momento, nosso desafio seja tornar nossos serviços tão intuitivos quanto o ecossistema de um smartphone. Este é um referencial que podemos almejar: tornar o Registro de Imóveis o novo prelo de nossa era, permitindo um olhar quanto à inteligência urbana acessível a todos.

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